segunda-feira, 14 de julho de 2008

Café Pingado - Jacques Prévert


É terrível
O barulhinho de ovo quebrado contra o balcão de zinco
terrível esse barulho
quando ele se agita na memória do homem faminto
terrível também a cabeça do homem
a cabeça do homem que tem fome
quando se vê às seis da manhã
no espelho da grande loja
uma cabeça cor de poeira
mas não é a sua cabeça que ele vê
na vitrine da casa Fauchon
pouco lhe importa essa sua cabeça de homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
cabeça de vitela por exemplo
com molho de vinagre
ou cabeça de qualquer coisa que se coma
e mexe lentamente o maxilar
lentamente
e trinca os dentes lentamente
pois o mundo se diverte à custa da sua cabeça
e ele nada pode contra o mundo
e conta com os dedos, um, dois, três
um, dois, três
três dias que não come
e já está cansado de repetir por três dias
As coisas não podem continuar assim
mas continuam
três dias
três noites
sem comer
e por detrás do vidro
patês garrafas conservas
peixes mortos protegidos pelas latas
latas protegidos pelo vidro
vidro protegidos pelos tiras
tiras protegidos pelo medo
quantas barricadas por seis sardinhas infelizes...
Mais adiante o bar e o restaurante
café com leite e pãezinhos quentes
o homem titubeia
e lá dentro de sua cabeça
um nevoeiro de palavras
um nevoeiro de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café com leite
café pingado rum
café com leite
café com leite
café com crime pingado sangue!...
Um homem muito estimado no bairro
cortaram a garganta dele em pleno dia
o assasino o vagabundo lhe roubou
dois francos
ou seja um café pingado
zero franco setenta centavos
dois pãezinhos com manteiga
e vinte e cinco centavos de troco a gorjeta do garçom
É terrível
o barulinho do ovo cozido contra o balcão de zinco
terrível esse barulho
quando se agita na memória do homem faminto.

...

;(

Eu quero!!!

http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI1720887-EI1141,00.html

Como é possível???

domingo, 13 de julho de 2008

... e viva o Rock and Roll!!!

Hoje é o dia internacional do Rock and Roll!!!
Êêêêêêêê!!!!
Mas eu não quero falar sobre isso agora.


B/

Quero falar sobre algo que todo mundo odeia falar; algo que todo mundo prefere fingir que não existe.



.

O Bicho - Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
.
Língua dos cachorros - Extromodos
Eu falo a lingua dos cachorros
e eles não contam pra ninguém
Eu lato, bato, cato, mordo
e eles não contam pra ninguém
Outro dia eu saí pra passear
- Hey, seu moço, tudo anda muito mal
Como tudo que puder eu encontrar
Durmo embaixo de um pedaço de jornal
A rua embaixo tá fazendo muito frio
Aí em cima deve ser bem mais legal
Eu falo a lingua dos cachorros
e eles não contam pra ninguém
Eu lato, bato, um gato mordo
e eles não contam pra ninguém
Eu queria ter um braço como o seu
Eu só queria ter a chance de ir pro céu
Andar de carro toda hora que quiser
Fazer amigos, conhecer papai noel
Todo cachorro é dono de tanto segredo
Alfredo quer só ter os olhos como os seus
Sou um cachorro e a todo homem meto medo
Você devia ser tão dócil quanto eu
Eu falo a língua
Eu falo o que quiser também
Eu falo a língua
Eu falo o que quiser também
.
.


Uma amiga minha muito amada me falou uma vez que eu era diferente. Eu perguntei porque ela estava dizendo aquilo. Ela então me falou que era porque eu não fingia fechar os olhos. Porque eu percebia, e assumia, que a pobreza existe, que o preconceito existe, que a dor existe. Porque, diferentemente da maioria das outras pessoas, eu não sou indiferente às diferenças; porque uma parte do meu coração seca quando vejo uma criança pedindo dinheiro, ou alguém dormindo na rua, ou qualquer outra coisa que seja real. E ela falou que isto era importante; que isto fazia diferença.

Mentira.
Besteira.
Isso não diferença porra nenhuma.

O mundo continua como está; a vida continua sempre a mesma merda injusta.
E eu não sei o que eu posso fazer para modificá-lo, para torná-lo melhor. Sequer sei se isto é possível, se é compatível com o gênero humano.
Se o mundo é o que é, se a sociedade é o que é, é porque ela reflete o Homem. É um sistema caótico; o todo é apenas uma reprodução das pequenas partes. Você pode pegar uma fração deste todo, comparar com outra fração, e verá que sim, elas são diferentes. Mas se você pegar várias e várias frações, verá que cada uma é parte E representa o todo. São todas diferentes e iguais, ao mesmo tempo. A nossa sociedade é o que nós somos.

E isto fere a mim.
Faz a minha esperança desfalecer ao tic-tac do relógio.
Esperança de que possa haver uma justiça dor e felicidade, intrínseca em tudo. Que a dor das pessoas seja diretamente proporcional à felicidade que virá - porque só neste caso haverá justiça para o homem, se é que ela existe.