"Mas então, meu marido, por que te mantens sozinho? Aí estás, transformando em companheiras as tuas mais lastimáveis fantasias, entretendo esses pensamentos que deveriam ter morrido com aqueles que agora se ocupam. Coisas para as quais não há remédio não devem ser comtempladas. O que está feito está feito."
"Mas devo pedir-lhe humildemente que me perdoe: aquilo que o senhor é não pode ser transformado por minhas idéias. Os anjos ainda são brilhantes, embora o mais brilhante dentre eles tenha caído. Mesmo que todos as sórdidas silhuetas vestissem os trajos da Benevolência, ainda assim a Benevolência preserva, sempre, sua aparência benévola."
“Assim acontece sempre a esses nobres corações schillerescos; até o último instante, qualquer ganso é para eles um cisne; até o último momento, acreditam no melhor e nada vêem de mal; embora dêem uma espiada no outro lado do quadro que lhes é mostrado, não querem ver a verdade, até serem forçados a isso; a simples lembrança da verdade os faz estremecer; jogam fora a verdade com as duas mãos, até que as pessoas que lhes mostram as falsas cores imponham-lhes uma capa de louco.”
“Nunca melhorarás um homem se o repelires.”
“Pensam, falou Razumikine mais alto do que nunca; pensam que os ataco por falarem tolices? Nem um pouco! Gosto de ouvi-los dizer tolices! Este é um privilégio da criação. Pelo erro se chega à verdade. Sou um homem porque erro. Nunca uma simples verdade será alcançada sem serem cometidos quatorze enganos e muito provavelmente cento e quatorze. E o erro nos conduz a muitas coisas boa, mas devemos errar sob a nossa própria responsabilidade. Digam tolices, mas digam-nas as suas próprias e as beijarei por isto! Errar em nosso caminho é melhor que acertar em caminho alheio. No primeiro caso, é um homem; no segundo, não é melhor que um pássaro.”
“Viste que sabes que os outros são tolos, porque não procuras ser mais inteligente?”
"(...) Sou imparcial como a neve. Nunca preferi o pobre ao rico, Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim. Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas, Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja. Acima de tudo o mundo externo! Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim. (...)"
Contudo - Álvaro de Campos
"Eu ando pelo mundo divertindo gente, Chorando ao telefone E vendo doer a fome Dos meninos que têm fome..."
Esquadros - Adriana Calcanhoto
"(...) Assim vi a Federico Entre dois canos de arma A fitar-me estranhamente Como querendo falar-me Hoje sei que teve medo Diante do inesperado E foi maior seu martírio Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo Mas sei que não foi covarde Pela curiosa maneira Com que de longe me olhava Como quem me diz: a morte É sempre desagradável Mas antes morrer ciente Do que viver enganado. (...)"
A morte de madrugada - Vinícius de Moraes
"(...) Não, cansaço não é... É eu estar existindo E também o mundo, Com tudo aquilo que contém, Como tudo aquilo que nele se desdobra E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais. (...)"
Não, não é cansaço... - Álvaro de Campos
"(...) Essa felicidade que supomos, Árvore milagrosa que sonhamos Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos Porque está sempre apenas onde a pomos E nunca a pomos onde nós estamos."
Velho Tema I - Vicente de Carvalho
"(...) Os pés do chefe de família estão vermelhos Mas os sapatos estão bem engraxados Melhor despertar inveja do que piedade."
Roupa Suja - Jacques Prévert
"A morte de que falavam os poemas de Jaromil tinha pouca coisa em comum com a morte real. A morte torna-se real quando começa a penetrar no interior do homem através do envelhecimento. Mas, para Jaromil, ela estava infinitamente distante; ela era abstrata; para ele a morte não era uma realidade, mas um sonho. Mas o que ele procurava nesse sonho? Procurava a imensidão. Sua vida estava desesperadamente pequena, tudo o que o cercava era sem graça e cinza. E a morte é absoluta; é indivisível e indissolúvel."
A Vida Está Em Outro Lugar - Milan Kundera
"(...) Não amadureci ainda bastante para aceitar a morte das coisas que minhas coisas são, sendo de outrem, e até aplaudi-la, quando for o caso. (Amadurecerei um dia?) (...)"